Vai, entra em cena
e começa tudo de novo
faz da minha casa
teu desmantelo
atravessa o meu dia
como um estorvo
sai do meu quarto sem portas
como se nada fosse
ignora-me vezes sem conta
e sem um pingo de zelo
serve-me num prato frio
teu desprezo.
30 junho, 2011
24 maio, 2011
maratona
eu queria correr. desenfreadamente, sem limites, para onde o único destino fosse aquele imposto pela medida da minha exaustão. eu queria correr para longe, distante o suficiente, para ouvir apenas os meus passos, onde o som mais intenso fosse o arfar da respiração. eu queria correr numa só direção, numa estrada reta, sem horizonte. correr num ritmo constante e sem fim. eu queria sentir o vento secando a pele, do meu esforço, tirando meus cabelos do rosto. eu queria chegar ao fim e começar de novo. correr sem rumo ou descanso, sentindo cada músculo ardendo no corpo, sentindo a dormência do sangue em movimento. eu queria correr até me faltar o fôlego, até abrir o peito, e solto, poder sair do chão. e que seja qual for o fim do percurso, que seja a minha companhia o silêncio que só a ausência permite, ao coração.
08 maio, 2011
O dia do casamento
Tudo deveria começar pelo casamento. As pessoas se conhecem, se encantam, se apaixonam e com duas semanas se casam. Se casam antes de conhecer os piores defeitos, antes de saber o prato preferido. Se casam antes das primeiras crises, se casam antes de conhecer cada canto do corpo. Se casam antes da primeira ressaca juntos, antes de descobrir todas as manias.
Se casam quando estão apaixonados, quando preferem dividir o chuveiro, se casam quando passam o final de semana todo juntos debaixo de um edredon. Se casam quando fazer amor é ainda um ritual lento de conquista, que começa naquele telefonema para marcar o jantar. Antes disso, preciso comprar um vestido. Se casam quando os beijos ainda tiram o fôlego, quando o dia demora pra passar. Se casam quando pensam em enfrentar o mundo juntos, quando querem tudo, e até o menor dos eventos é um festival.
Se casam quando ainda dormem enroscados, cheirando o cabelo um do outro, quando o toque das mãos nas costas ainda arrepia, quando o coração ainda está vulnerável e desarmado. E que fraqueza tão boa. Se casam quando ainda existe todo o encanto do primeiro encontro, quando o começo é de fato o começo e o amor não dá descanso. Se casam.
Se casam no momento certo, da forma como deveriam ser todos os casamentos, como uma junção de duas pessoas tão apaixonadas que, de loucas, não enxergam o mundo, ou a consequência das suas paixões. Mesmo que depois se separassem, mesmo que depois o amor acabasse, mas que não acabasse depois de anos de relacionamento.
Mas tudo não começa pelo casamento. O casamento é a última instância, o último passo, a última medida diante de anos de um namoro desbotado. Raros são os que se casam realmente apaixonados. A maioria se arrasta num relacionamento apagado, esperando só o bendito dia do casamento para dar fim ao enfado.
Quando o coração já não vê tão bem o outro, quando os corpos já estão cansados de se conhecer, quando dormir junto é dormir separado no mesmo metro quadrado, quando já se conhecem todos os passos, quando os defeitos, antes tão raros, são exatos, quando os sonhos não saem mais do travesseiro, quando enfrentar o mundo significa apenas mais um dia de trabalho, quando não existem mais desculpas fiadas, quando não existe mais saudade, só costume, quando não existe mais o que postergar. Eles se casam.
Vão dividir o mesmo teto, enfim, e uma equação subtraída dos melhores momentos, aqueles do começo, aqueles mais intensos, aqueles que fazem ter vontade de casar, aqueles dos primeiros passos.
13 abril, 2011
bipolaridade
Lembra do tempo de escola, que sempre tinha uma turminha de alunos de óculos, sentados nas primeiras cadeiras da sala? Aquelas crianças que desde cedo demonstram todo o interesse do mundo por qualquer coisa que a professora fala?
Eu era uma delas, sem o óculos. Meus três melhores amigos usavam óculos, ou aparelho, ou os dois, e eu tenho quase a certeza que um deles sofria de algum tipo de retardo mental. Éramos duas meninas e dois meninos, cada um com seus interesses científicos, à exceção do amiguinho retardado que sempre estava com a boca entreaberta, ligeiramente babada.
Lembro com um certo carinho da minha infância. No meio da minha inocência juvenil eu nunca consegui realmente perceber a dimensão da minha real situação. Eu era uma nerd de poucos amigos, a garota que nenhum menino jamais se interessava (exceto, claro, meus próprios amiguinhos de óculos), aquela que tinha uma coleção completa de livros sobre mamíferos e cetáceos, que sabia decoradas todas as quatro eras geológicas e respectivos dinossauros e que sonhava em ganhar um dicionário Aurélio para completar a sua coleção particular de livros imprescindíveis. Eu era ainda a colega que não passava fila para os colegas-mala da turma, aquela que não interagia com a turma do fundão e que usava as roupas mais horrendas do universo. Eu era aquela criança que achava bacana usar óculos e lamentava ter os dentes perfeitamente corretos sem precisar de aparelhos.
Quando eu digo que lembro com um certo carinho é por que, de fato, era pitoresca e fofa, para não dizer trágica, essa minha condição infantil. Além da vontade louca de aprender mil coisas sozinha, de sorver as palavras dos livros como uma desesperada, eu cultivava o sonho mais lindo do mundo: ser bióloga marinha. Eu não queria ser modelo, aeromoça, médica ou advogada. Eu queria ser bióloga. Claro que com 7 anos de idade ninguém realmente sabe o que quer, mas essa determinação científica permaneceu por muitos anos, até eu constatar a minha óbvia incompetência para as disciplinas exatas como matemática, física e química. Eu achava que para ser bióloga bastava ter um microscópio e ser boa em biologia.
Nasci assim mesmo, eu suponho. Talvez a inteligência absurda da minha mãe tenha despertado alguma coisa no meu genoma que me fez nascer estudiosa. Nem estudava muito realmente, mas sempre me interessava pelos assuntos escolares (entre uma dezena de outros) e enquanto todo mundo dormia na aula daquela professora louca de história, eu ficava perplexa com a genialidade da mulher e a forma como o seu discurso aparentemente disparatado, fazia total sentido. Em geral eu era também a única aluna que participava das discussões de filosofia daquele professor estrábico, meio surdo e muito velhinho. A única que levantava o braço para responder todas as perguntas. A única que queria ler em voz alta as passagens do livro maçante Os Maias, de Eça de Queiroz. Aquela que citava, sem titubear, a estrofe inicial d' Os Lusíadas de Camões e se deleitava com todos os livros complexos da literatura lusitana que a professora passava pra ler em casa. A única que os lia.
Eu era ainda aquela com quem todo mundo queria fazer trabalho de grupo, mas apesar da minha inocência, eu nunca fui tão ingênua a ponto de fazer trabalhos em troca de amigos. Por isso fazia todos os trabalhos com a minha amiguinha crânio e juntas tinhamos sempre as melhores notas da turma. Era uma questão de honra e o troco pelo bullyng de ser caçoada e apanhar quase todos os dias das outras crianças. A inteligência era meu único orgulho já que eu era magrela e pequena demais, banguela com os dentes caindo, cabelo ralo e escorrido, pobre, piolhenta e com amigos retardados. Talvez esse orgulho todo tenha sido o fator decisivo para a minha intolerância à burrice, mas isso é um post à parte.
O meu perfil de estudante-nerd andrajosa permaneceu por muitos anos, até o fim da faculdade propriamente, mas praticamente até os 17 anos de idade, eu ainda achava mais interessante um livro de astronomia do que sair com amigas para tomar porre nas baladas. Minha vida era uma emocionante aventura entre livros de todas os tipos, o Clube do Meio Ambiente da escola (composto por não mais de 7 pessoas, numa escola de 1500 alunos), atividades de ginástica olímpica, rappel e escalada, convivência com os amigos nerds, agora sem aparelhos nos dentes, mas com algum instrumento musical, entre outras coisas instigantes como tomar ice tea de pêssego na praia.
Quem me vê hoje jamais poderia imaginar como foi minha infância nerd (não aquela nerd de videogame, mas de livros mesmo, rata de biblioteca). Jamais poderia pensar que eu uso salto alto e roupa escandalosa para compensar os longos anos de patinho horroroso e cenas dignas de filme americano (tipo Garotas Malvadas). Jamais conseguiria imaginar que a expansividade que eu tenho na rua/blog, eu compenso com introspeção, timidez e bons livros. Que o meu blog de moda aparentemente fútil é a válvula de escape de uma quantidade sem fim de densos pensamentos. Ou que o que eu falo de besteira é a compensação por todos os debates de filosofia com o professor. Muito menos alguém que me conheça hoje, poderia entender como duas pessoas tão diferentes podem viver no mesmo corpo: a blogueira louca que escreve e a nerd tímida que vive.
30 março, 2011
uma caixa de bis branco
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Meu blog também é desabafo.
Me perdoem as palavras rudes, no fundo eu sou legal.
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Eu não consigo esperar. A espera é um dos exercícios mais complexos que eu posso desempenhar na minha vida. Tudo pra mim tem que ser agora. Quem espera perde a vez, essa é a minha filosofia. Eu não espero com paciência, eu vou perdendo os brios e decência e, em pouco tempo, eu já desejo a morte de várias pessoas.
Claro que isso acontece com mais frequência quando eu preciso resolver alguma coisa no banco ou na nossa digníssima Prefeitura de Recife, e percebo que cargos públicos são fábricas de incompetentes. Morosidade, burocracia e um monte de pra-quê-isso que ajudam o ser humano a transcender através da espera eterna. Mas eu não transcendo. Eu transbordo.
Sou tomada por um acesso de fúria que não consigo externar. Infelizmente não dou escândalo, nem tenho ataques de bipolarismo e saio quebrando tudo, xingando a mãe e chamando de arroz doce. Também não quebro cadeiras, não bato na mesa ou grito com o atendente cadêêêêêê-o-gerente-dessa-espelunca?????? Essa educação velada tem um preço: uma gastrite emocional que mora no meu estômago.
Por quê ninguém me ensinou a dar um bom escândalo ein? A gritar um monte de palavrão pra ser atendida prontamente? Mamãe esqueceu disso. E enquanto eu espero na Prefeitura de Recife, exatas 1 hora por uma nota fiscal, um papelzinho impresso inexpressivo que eu ainda paguei R$ 6,74 por ele, (depois de pagar uma anuidade de R$ 150) eu desejo a morte sórdida de cada um daqueles funcionários. Daquela mulher mal-humorada que finge que tá digitando coisas, pra não atender a próxima senha. Daquele senhor que vai e volta de uma salinha misteriosa com absolutamente nada nas mãos. Daquele estagiário que senta numa mesa vazia e não faz nada, igual a todo mundo. Eu desejo que o Governo, o Estado ou sei lá o que danado que administra essa terra, se exploda em mil pedacinhos e que, não satisfeita, eu pegue os caquinhos e jogue no inferno.
E mais! Compreendo perfeitamente se um dia chegar um lunático metralhando todo mundo. Isso é a consequência de anos e anos de escândalos não dados no balcão de atendimento. Isso é a revolta contra aquelas pessoas preguiçosas que, através de um concurso, vão apodrecer nas cadeiras da Prefeitura, fazendo nada, conversando com o colega do lado, enquanto a gente espera E PAGA, para não ser atendido e eles ganham pra nunca serem demitidos. Isso é a resposta pelo desrespeito com quem paga seus impostos pra fazer as coisas funcionarem e, no frigir dos ovos, o que a gente faz é alimentar uma cochia de porcos.
Saí da Prefeitura arrasada por dentro. Com aquela agonia de quem foi assaltado e o ladrão não foi preso sabe? Aquela sensação de fazer papel de palhaça. Logo eu, que detesto circo. Chegando ao Recife Antigo, obviamente não tinha mais vaga pra estacionar e eu coloquei o carro no Paço (ou seja, R$ 27 ao fim do dia).
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