25 agosto, 2014
18 agosto, 2014
um coração batendo no mundo
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Sou um coração batendo no mundo. Dentre tantos corações fortes e intensos, um veio bater no meu peito, num ritmo louco e sem contento. Desassossegado, quase mal educado, retumbante e barulhento, com vinte mil alfaias em conjunto, explode em meu peito a vontade de tudo. Sou um coração batendo com fome, no mundo. Quero que a vida me leve de coração cheio, saciado, empanturrado, que não me falte nada que viver. Eu tenho pressa, meu amor, de ver que a história tem um final feliz. Vivo com a urgência dos dias contados, sem saber exatamente o dia do fim. E não vivemos todos assim?
Parece que tem gente que bate o pé, em vez do coração. Estranho é pensar que viver adormecido pode ser o melhor caminho e que se alimentar de rasos momentos, multiplicar silêncios é, afinal, um jeitinho bom. Estranho é pensar que a gente gosta, mas prefere não sentir, que a gente abre mão da inquietação natural de tudo o que faz bem e dorme no estranho conforto de uma cama vazia. É como escolher um prato sem risco, sem gosto, sem afeto, feito apenas para alimentar o bucho, e partir sem recordação. Pois meu coração é voraz e tem fome e bate na mesa três vezes, retumbante, quero mais, quero melhor, quero repetir.
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13 agosto, 2014
jogo de xadrez
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Agora que paro para escrever sobre nós dois, confesso: entrei com muito pouco nessa história. Há tempos sabia que fazíamos tudo errado e se continuei insistindo foi por que gostava da nossa peculiar teimosia. Fomos soberbos e exagerados. Eu no excesso e você no descaso, e assim perdemos o fio da navalha, cegamos nossos ouvidos com discursos pífios, repetimos, feito discos riscados, nossos verbos sem sentido. Quanto texto disperdiçado. O que dissemos nunca se justificou em gestos, para nenhum dos dois. Pelos meus cálculos, você me queria pela metade, eu não te queria por inteiro. Tão distintos e apartados, nem percebemos que estávamos do mesmo lado.
O que eu tinha para dar era quase nada. Não se entrega um coração em pedaços, esperando que outro coração bagunçado o possa consertar. Fui ingênua de achar que poderíamos multiplicar nosso vazio e obter um resultado. Sempre fui ruim de matemática. Mas entendo das operações mais básicas e percebo que, nós dois somados, resultamos numa subtração. Na minha equação louca, os gráficos mostraram o rombo no saldo. Se, nessa história, entrei quase zerada, estou saindo com menos ainda. É que toda pessoa deixa um pouco de si com o outro, mas você não me deixou nada.
Tentei sugar alguma coisa de ti, tentei me apropriar de qualquer sopro e quase me contentava em cheirar tua nuca antes de dormir, apenas para ter uma lembrança singular para a minha memória fraca, mas você foi tão volátil, que eu não consegui acompanhar teus passos. Fui intensa na medida do que pude, com o que me sobrava do tempo e das entranhas, e fiz, do meu gostar, o maior pretexto para te ter. Descobri que gostar é a menor das variáveis dentro de uma relação. Descobri que o tempo, essa constante matematicamente fracionada, é quem dita as regras desse jogo muito íntimo. Mas eu sempre fui ruim em matemática. Nem as horas aprendi a contar, mas sempre as soube perder. Então me entreguei às palavras, que me preenchem tanto quanto os livros que leio, mas elas também me foram falhas e eu ainda duvido se realmente sei escrever em bom português.
Não era amor, não era paixão, não era destino, acaso nem sorte o que nos uniu. Era pura teimosia das nossas distintas personalidades. Uma piada da vida para nos fazer perder o tempo. Era o nosso jogo de não-querer. Era uma vontade visceral de subverter o próprio conforto e transformar em confronto o que poderia ser bom. Montamos nosso tabuleiro de jogo com peças distintas e regras invioláveis e a cada jogada eu tinha a certeza que iria ficar em desvantagem. E fiquei. Por que sou ilógica, intensa, invertida, insensata, sempre fui ruim de matemática e também não sei jogar xadrez.
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02 julho, 2014
O peixe, a pedra e a árvore
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Como água que sou, apresento minha essência com transparência. Me desfaço em correntezas e invado as margens, os abismos, a natureza, descansando no leito que me der contenção.
O peixe me acompanha no caminho, serpenteando entre meus dedos, imerso e entregue sem desvelo, mergulha sem medo, enfrenta minhas correntes e nelas resiste, paciente.
A pedra dorme imersa no leito, impassível e persistente no fundo de mim. Por ela eu passo, contorno, contorso e revelo-a apenas quando me vejo nua, exposta, despida em maré seca.
A árvore, à minha beira, planta-se inclinada e robusta sobre mim, fincando suas raízes nas minhas entranhas, curvando seu tronco sobre o meu espelho, onde eu apenas reflito sua densa folhagem sem, de fato, a possuir.
Como coração que sou, apresento minha essência com transparência. Me desfaço em correntezas e invado a casa, os quartos, a mesa, descansando no amor que me der contenção.
Entre o peixe, a pedra e a árvore percebo que o peixe é aquele amor possível, tão simples, presente, que apesar das minhas correntezas, aguarda paciente e segue esperando pela minha direção.
Que a pedra pertence a quem dorme no fundo de mim, insistente. Um amor guardado pelo azul profundo, lapidado por cada gota que corre, escondido e submerso, mas fatalmente presente e sem fim.
A árvore é outro tipo de amor, contemplativo e distante, que se espalha pela minha superfície sem me tocar, pintando sua exuberância na minha tela complacente, que me consome e cresce sobre mim, que debruça seus galhos sobre o meu leito e me joga migalhas de folhas. Um amor que enverga, na mesma proporção, o encanto e o vazio de estar sempre perto e nunca pertencer.
E os três amores seguem pelo rio, mergulhando, ladeando ou dormindo nessas águas bravas, indômitas e sem destino, deixando o leito e o peito em desatino, revoltas por serem, essas águas, o caudaloso caminho de onde não se pode sair.
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07 junho, 2014
amores possíveis
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1.
10:35 da manhã e eu estava atrasado para uma reunião no centro. Desci as escadas da estação correndo, contornando as senhorinhas de passos lentos, ultrapassando o grupo de adolescentes que se arrastavam ao som de algum barulho da modernidade e cheguei à plataforma ofegante e ligeiramente frustrado: o trem das 10:30 havia partido, sem nenhum atraso. Restava-me apenas esperar, impaciente, a próxima largada. Parei para observar as pessoas em volta, uma massa de apressados, ilhas humanas cercadas de seus próprios desertos. Aproveitei o tempo livre para passar os olhos sobre o documento enfadonho que me levaria àquela reunião. Enquanto pulava uma ou duas linhas de cada parágrafo, a gravata estrangulava-me a garganta, o paletó comprimia-me os ombros, os sapatos pressionavam-me os dedos dos pés. O sufoco da manhã quente espalhava um bafo de enxofre por toda a plataforma. O ar fedia a ferro e para todos os lados alguma testa pingava de suor. Cinco minutos se passaram e aos poucos deixei de perceber o tempo da espera. Comecei a observar as pessoas, ensimesmadas e dispersas, vagas como qualquer vagão.
Foi quando percebi aquela moça surgindo na escada, como se estivesse mergulhando no concreto. No meio da pressa do mundo, ela descia as escadas vagarosamente atrapalhada, carregando uma mochila pesada em um só ombro, numa mão uma sacola e na outra um livro de bolso. Não tirava os olhos das páginas, exceto quando a mochila insistia em cair pelo braço. Olhei para a moça por um tempo que parecia uma eternidade e me surpreendi quando percebi que ela não me percebia de todo. Ao chegar, enfim, à plataforma, a moça colocou a bolsa e a sacola no chão e começou a travar uma batalha boba contra a roupa. Tentava tirar o casaquinho de malha amarelo, sem tirar o livro da mão. Tão desajeitada, fez mais alarde do que imaginava ou pretendia sua discreta figura. Escondia-se atrás de um par de óculos de aro bem grosso, um daqueles escudos que nos protegem de não precisar olhar nos olhos do outros. Ao fim da luta com o casaco, conformou-se com seu desmantelo e fechou o livro esperando, paciente, o próximo trem.
Ali, a um metro de mim, percebi suas formas pequenas e uma postura ligeiramente curvada, como que se fechando em si. Já não conseguia pensar na reunião, no documento enfadonho, no bafo quente da plataforma ou no trem atrasado, tão intrigante me parecia aquela figura. Pensava apenas que poderia sentar-me ao lado dela e puxar uma conversa banal qualquer. Que poderia falar do tempo quente e de como seria bom passar férias à beira do lago e que lugares você costuma viajar, mesmo? - Não costumo viajar. - Então podemos começar esse hábito juntos. E assim ela abriria um sorriso e com esse sorriso uma porta para eu entrar nesse livro que ela não para de ler. Fui sugado para um enredo fantasioso, típico de quem inventa histórias em tempo inútil. Pensei que deveria, eu também, ter trazido um livro para me ocupar.
O trem chegou à plataforma às 10:45 e eu nem me dei conta que tinham se passado apenas 10 minutos. A moça de livro na mão, catou suas tralhas do chão: casaco, mochila, sacola e colocou-se logo em frente à porta do trem para garantir um lugar. Entrou apressada e sentou-se no extremo canto direito do vagão. À esquerda do vagão, todas as cadeiras ocupadas, mas quatro cadeiras à sua esquerda e mais cinco à sua frente, todas vazias. Com nove cadeiras à minha disposição de escolha resolvi, num impulso de ousadia que não me é peculiar, instalar-me exatamente na cadeira ao lado da moça. Braço com braço, ombro com ombro, perna com perna, me vi ali, colado a ela. - É bom esse livro? - Sim. - De quem? - Dostoiévski. Teria me dito ela, caso eu tivesse perguntado.
2.
Saí de um encontro meio atordoada. Tenho certeza que escolhi a pior roupa e a minha vida estava pelo avesso. Todas as etiquetas para fora, mostravam a minha composição. Sentia-me despida e observada, como se tivesse na mochila o peso de todas as feridas expostas. Como era difícil carregar aquele fardo nas costas. A única coisa que eu queria era sair daquela cama, daquele quarto, daquele lugar. Gostava dele, mas sabia o quão pequena era a nossa história, no máximo uma fábula de onde um tiraria uma dolorosa conclusão. Corri para pegar o próximo trem, sem nem saber a hora, mas fingi para ele, que estava atrasada. Depois de passar pela portaria e sorrir um falso bom dia, senti-me aliviada. Desacelerei o passo e arrastei-me, meio perdida, para a plataforma.
Desci as escadas com calma, para conter a respiração e abri meu livro para distrair a cabeça dos pensamentos. Com certeza li mais de cinco vezes a mesma frase até entender que não conseguia pensar na história dos outros, quando eu mal sabia como ler a minha. O calor era exasperante e logo percebi que o maior erro foi vestir aquele casaco. Ao parar, enfim, na plataforma, dediquei-me à árdua tarefa de me ver livre do casaco, sem deixar o livro cair no chão, como se o livro fosse meu único ponto de equilíbrio, sem o qual eu perderia de vez minha ligação com alguma coisa sólida naquele dia.
Estava tão atrapalhada que me envergonhei da cena desajeitada, quando percebi um moço olhando para mim. Fingi ignorar sua presença para não aumentar ainda mais essa sensação de ter um holofote sobre a minha cabeça, agora iluminando a minha nudez. Sentia uma dor no peito que me comprimia. A certeza de um amor estranho, ausente, externo, que me rondava, mas não preenchia, empurrando meu fôlego contra a espinha. - Quer ajuda com a mochila? - Não, obrigada. Está meio vazia. - Podemos enchê-la juntos. Ele me diria, caso tivesse, de fato, dito.
Ali, a um metro de mim, eu era observada pelo moço de paletó e gravata. De soslaio, medi sua figura. Parecia bem afeiçoado, bonito mesmo, de olhos claros, talvez um pouco suado, mas era totalmente aceitável que, naquele calor, ele estivesse desesperado, uma vez que se encontrava trancado dentro de uma roupa de dar dó. Segurava uns papéis meio amassados e olhava fixamente na minha direção. Talvez não estivesse olhando para mim, talvez eu estivesse sendo enganada por aquela situação constrangedora que todo mundo passa quando pensamos que alguém está nos olhando, mas na verdade é alguém, atrás de nós, o sujeito observado. Mesmo assim senti-me bem com aqueles olhos pousados em mim. O último olhar que recebi foi tão vago quanto o próximo vagão.
Quando o trem chegou senti um alívio súbito. Iria para qualquer lugar longe dali. Posicionei-me em frente à porta e quando esta se abriu, procurei o canto mais reservado para sentar. Tantas cadeiras vazias à minha volta e o moço sentou-se justamente ao meu lado, invadindo meu espaço com seus ombros. Olhei discretamente para os papéis amassados que trazia e percebi que lia algum documento enfadonho. - Talvez um livro fosse melhor que isso. - Com certeza. Que livro você me indicaria? - Este de Dostoiévski. Eu diria, caso eu tivesse puxado uma dessas conversas banais.
1.
Eu estava tão perto dela que sentia o cheiro de shampoo nos seus cabelos. Queria conversar com ela, saber de que cama ela tinha saído esta manhã, para assim saber se ela dormia todas as noites acompanhada ou sozinha, se era amada ou infeliz. A cada estação eu perdia uma nova chance de perguntar seu nome e, quem sabe, chamá-la para um café. Mas ela estava fechada em seu livro e desconfio que não percebia a minha agonia. Os solavancos do vagão eram motivo para que eu soltasse o corpo levemente, como um pêndulo, encostando meu ombro no dela. Imaginei que, da sua boca rosada, saíssem algumas risadas das minhas piadas bobas, na tal mesa do café. Imaginei que poderia livrá-la da mochila, da sacola, do casaco e que, talvez assim, ela e o livro pudessem caminhar juntos em harmonia. Imaginei uma história de amor que poderia ser contada em detalhes.
2.
Eu estava tão imóvel naquela poltrona, quem bem poderia desconfiar de uma contratura muscular qualquer, não fosse pelo meu nervosismo diante daquele homem ao meu lado, que parecia respirar os meus cabelos. Surpreendentemente não me senti assustada, apenas constatei que ele, de algum modo, me farejava, como se fosse reconhecer alguém em mim. Queria que o solavanco do trem pendesse para um só lado e que ele permanecesse encostado. Enquanto eu lia meu livro sem prestar a menor atenção na narrativa, todos os meus sentidos estavam aguçados. Sentia que ele queria falar comigo e eu com ele, mas a cada estação que passava, o maquinista interrompia nosso silêncio para avisar que o trem chegava a uma nova plataforma. Penso que as histórias de amor nascem de uma série de coisas não reveladas, de palavras contidas.
1.
Acho que ela estava a caminho do mesmo lugar que eu. Cinco estações se passaram e a moça continuava no vagão, presa ao livro que eu não conseguia ler a capa. Olhei para o vidro por trás das cadeiras à nossa frente e percebi seu reflexo de olhos baixos, fixados nas páginas de um romance qualquer. Agora via seu rosto de outro ângulo e esperava, ansioso, que ela olhasse para o vidro também. Que nossos olhares se encontrassem e assim eu sorrisse e assim começasse uma daquelas conversas banais. - Indo pro centro? - Não, sei. E você? - Eu sei. Vem comigo. Eu teria dito, se ela tivesse me olhado.
2.
A minha estação estava chegando. Por mais que eu não tivesse um rumo, a vida se encarrega de nos levar a alguns lugares e eu havia decidido que deveria voltar de onde tinha saído e resolver aquele amor dormido com ressaca pela manhã. Portanto esperei a próxima estação e nela eu desceria. Olhei para o vidro à minha frente, que me refletia, e me vi acompanhada daquele homem. Dois estranhos unidos por um ombro só e meia dúzia de frases não ditas. Queria que ele olhasse para o vidro e visse nossa imagem juntos. Que coisa estranha é ver no reflexo uma possibilidade que não existe. - Vai descer nessa estação? Não sei, por quê? - Quero companhia. - Eu diria, se ele tivesse olhado para o vidro que nos refletia.
1.
O maquinista anunciou a chegada a uma nova plataforma e eu juro que engasguei com as palavras que deveria ter dito. Tossi minha covardia enquanto a moça, de um pulo, pegava a mochila e saía pela porta fora, não sem antes se virar e olhar diretamente para mim. A porta ficou aberta por um tempo que seria suficiente para eu sair atrás dela. Meu cérebro correu, mas minhas pernas não responderam e eu fiquei no vagão. Ela permaneceu parada na plataforma, olhando para mim pelo vidro e eu olhando para ela, me vi refletido. O trem fechou a porta e se foi. Assim percebi que existem tantos amores que seriam possíveis, se não fôssemos todos um bando de tolos.
2.
Quando o trem parou na plataforma, quis que minha saída fosse indolor. Levantei de uma só vez e arrastei comigo o olhar daquele moço. Fiz questão de devolver seus olhos com o meus e levei-o, junto comigo, até a plataforma. Do lado de fora do trem olhei para ele e me vi refletida no vidro. Percebi que existe um tipo de história de amor que também merece ser contada: aquela que a covardia nunca vai deixar acontecer, por que eu não falei, você não disse, eu não vi, você não percebeu, eu esperei, você desistiu, eu corri, você ficou e nós perdemos a estação.
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28 maio, 2014
21 maio, 2014
de repente
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Vez por outra, sem tempo determinado ou motivação explícita, somos indefensavelmente sugados para fora de nós mesmos, dos nossos hábitos, da nossa apatia e da forma acomodada como vemos a vida. Isso. Ainda que sugar sugira “puxar para dentro”, a ideia aqui é de ser puxado para fora mesmo. Subitamente expandidos, elásticos e flexíveis. E eu não falo sobre revoluções e caos, falo sobre coisas simples como o debruçar de um olhar diferente sobre todas as coisas.
De repente me vi assim. Ou melhor, parei de me ver e comecei a enxergar outras coisas que pairavam ao meu redor e às quais eu não dava atenção, tão centrada que estava em mim mesma. De repente deixei de ter vontade de vestir o exuberante e as manhãs se tornaram pequenos momentos de tortura onde a obrigação de vestir alguma coisa legal frustrava a genuína vontade de sair de pijama.
De repente parei de ler todos os portais que a internet me proporcionava e, ao invés disso, naveguei a esmo na ansiedade de pegar o metrô de volta pra casa e ler mais umas folhas do livro do momento. De repente deixei de querer fotografar o que vejo no espelho e passei a captar a vida ululante que grita em silêncio nas ruas, nas plantas, nos edifícios. E, feito louca, caminhei com a lente em riste.
De repente desejei apenas uma companhia firme ocupando o lugar barulhento de dezenas de farras, bares e noites sem dormir. De repente calei mil palavras ruidosas pra sentir a dimensão de umas poucas. De repente me vi viciada no olhar e nessa mudança de estado tudo virou motivo de uma inquieta apreciação.
De repente descobri um mundo mudo que se apresenta aos olhos como um quadro vivo e me oferece um saco sem fim de inspiração. De repente derrubei muros que custei tanto a construir e atrás deles encontrei pedaços esquecidos de mim. De repente quis mudar meu destino e desistir de tudo o que me ocupa um tempo sem retorno. E quis viajar pra onde for, mesmo que sozinha, para poupar meus ouvidos dos diálogos vãos.
De repente me vi assim. Ou melhor, parei de me ver e comecei a enxergar outras coisas que pairavam ao meu redor e às quais eu não dava atenção, tão centrada que estava em mim mesma. De repente deixei de ter vontade de vestir o exuberante e as manhãs se tornaram pequenos momentos de tortura onde a obrigação de vestir alguma coisa legal frustrava a genuína vontade de sair de pijama.
De repente parei de ler todos os portais que a internet me proporcionava e, ao invés disso, naveguei a esmo na ansiedade de pegar o metrô de volta pra casa e ler mais umas folhas do livro do momento. De repente deixei de querer fotografar o que vejo no espelho e passei a captar a vida ululante que grita em silêncio nas ruas, nas plantas, nos edifícios. E, feito louca, caminhei com a lente em riste.
De repente desejei apenas uma companhia firme ocupando o lugar barulhento de dezenas de farras, bares e noites sem dormir. De repente calei mil palavras ruidosas pra sentir a dimensão de umas poucas. De repente me vi viciada no olhar e nessa mudança de estado tudo virou motivo de uma inquieta apreciação.
De repente descobri um mundo mudo que se apresenta aos olhos como um quadro vivo e me oferece um saco sem fim de inspiração. De repente derrubei muros que custei tanto a construir e atrás deles encontrei pedaços esquecidos de mim. De repente quis mudar meu destino e desistir de tudo o que me ocupa um tempo sem retorno. E quis viajar pra onde for, mesmo que sozinha, para poupar meus ouvidos dos diálogos vãos.
De repente eu percebi que me afastei o suficiente do meu epicentro,
deixei de ser o olho que vê sempre a partir de si mesmo e fui, ainda que
por breves momentos, um observador externo da minha própria condição. Como que uma segunda pessoa que andasse ao meu próprio lado, me olhando. E assim esvaziei-me de um milhão de vontades bobas e desejei que essa ebulição nos sentidos durasse pra sempre, e que durasse pra sempre também, o silêncio que precede qualquer explosão.
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18 maio, 2014
sobre os livros
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- Gostaria de saber sobre o que estamos falando agora.
Não compreendo. É ininteligível a nossa conversa.
Apesar de parecer tratar sempre de um mesmo assunto,
não encontro o ponto de confluência das nossas ideias.
Me inclino a pensar que estamos em páginas
diferentes dessa história, ainda não cheguei ao seu capítulo,
ou será que foi você que ainda não chegou no meu?
- Desculpa, mas não estamos lendo o mesmo livro.
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01 maio, 2014
Janela suja
Fazes-me ter insônias. Não saber como acomodar a angústia no travesseiro ou espalhar a tensão do corpo sobre a cama. Com os olhos ébrios, semicerrados, contemplo o dia que amanhece lá fora, numa paleta intensa e viva de cores. Prendo meu foco à sujeira da janela e percebo que entre nós existe uma fuligem que nos engasga. Mal nos conhecemos e já desgastamos algumas arestas, que ao invés de suaves, ficam afiadas. A tua fumaça me incomoda, você inteiro me incomoda e, no entanto, custo a me afastar. Me agarro à ideia de que ao menos fui tirada de um sono insípido do qual eu não conseguia sair. Tudo errado e tão certo, que nasce uma peleja a cada passo dado. Percebo que dançamos uma valsa em descompasso e ao invés de pairarmos leves pelo asfalto, pisamos no pé do outro, recuamos quando devíamos avançar, avançamos em tropeços no recuo do passo. Desconsertante essa sujeita na janela. Não sei se limpo e vejo, enfim, o lado de lá, ou se deixo acumular mais poeira e soterro de vez esse horizonte lilás. É estranho pensar que se não fosse a insônia que você me causa, eu sequer olharia pela janela às cinco horas da manhã. Essa inquietude me atordoa e desespera. Perco o controle. Logo eu tão acostumada a fazer prevalecer minha vontade soberana, me vejo impotente diante dessa vontade maior que é a sua, a da janela, a da sujeita, a do amanhecer, de não me fazer dormir.
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08 abril, 2014
Spectativus
Expectativa, do latim medieval spectativus:
esperar, desejar, ter esperança.
* * *
Reza a lenda que a pior coisa para um relacionamento é quando um dos envolvidos cria expectativas. Falsas ou verdadeiras expectativas, o fato é que projetar qualquer coisa para o futuro pode ser o primeiro passo para a falha do tal projeto.
O que a lenda reza, contudo, é contrário do que prega a lógica. Pelo raciocínio matemático, tudo o que precisa ser fundado, construído, edificado, precisa antes de um plano, uma expectativa. É que mais do que uma projeção do futuro, a expectativa é uma esperança, uma aposta benevolente no universo.
Um dia eu pensei que a lenda rezava o certo, que criar expectativas era selar o destino com uma grande catástrofe amorosa, mas hoje eu vejo que a incapacidade de criar essa espera nos livra de uma gigantesca decepção, simplesmente por que erradica qualquer possibilidade de amor.
Se de um lado existe a expectativa infantil e otimista de sonhar com o intangível, do outro lado existe a total falta de esperança no amor. Aquilo que eu acreditava ser o maior erro (esse de esperar e projetar), aquilo que eu fui aos poucos podando, tolhendo e secando era, na verdade, o maior trunfo. E nos dois cenários possíveis, o não amar é sempre mais doloroso.
Era a expectativa o que me fazia acreditar, queda após queda, que o próximo amor seria melhor, mais intenso, mais profundo, mais pra sempre. Que esse próximo amor cumpriria todas as minhas expectativas. E era por essas expectativas que eu me dedicava, amava e sorria, como se fossem sementes que eu planejava colher. E era isso que me enchia de coragem para enfrentar tantas decepções quanto fossem necessárias, até ver meu sonho falhar de novo ou triunfar enfim.
Mas o que eu tenho hoje é a falta de fé de quem não espera nada. De quem não espera encontrar o amor, esbarrando ombros numa livraria. De quem não espera se apaixonar no primeiro beijo. De quem não espera ser apresentada por uma amiga. De quem não espera fixar o olhar em alguém no meio de uma multidão. De quem não espera o tempo certo, por que quem espera, perde tempo.
Eu acreditava que não criar expectativas deixaria a vida mais leve, o caminho mais fácil. E no começo é essa a falsa sensação de liberdade que temos. Mas depois percebemos que essa leveza é passageira e que esse desapego nos preenche de um imenso vazio, tão vasto, que fica difícil alguém entrar nesse espaço de novo.
A falta de expectativas nos distancia da capacidade de incluir o outro na nossa vida, de pensar no plural e enxergar que alguém pode andar ao nosso lado. A falta de expectativas nos priva dessa vontade de imaginar em 2 segundos, nossa vida inteira com outra pessoa, e nessa falta de planos, não apostamos, fundamos, edificamos nem construímos nada. Nem prédios, nem amor.
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A falta de expectativas nos distancia da capacidade de incluir o outro na nossa vida, de pensar no plural e enxergar que alguém pode andar ao nosso lado. A falta de expectativas nos priva dessa vontade de imaginar em 2 segundos, nossa vida inteira com outra pessoa, e nessa falta de planos, não apostamos, fundamos, edificamos nem construímos nada. Nem prédios, nem amor.
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30 setembro, 2013
de tanto procurar
09 setembro, 2013
16 julho, 2013
palavras suas
Antes fossem palavras minhas, mas foram palavras suas.
* * *
Meu porto sempre estará livre pra você. Meu barco sempre procurará o seu porto pra estacionar... Minha natural inconsequência origina-se na leveza com que encaro a vida...talvez eu leve ela a sério de menos. Mas, sinto falta de algo sempre que não estou do teu lado...esse sentimento sempre me relembra o tamanho da tua importância...Adoro olhar pro teu umbigo...podemos marcar um dia pra ficar observando ele em dupla?
um beijo.
* * *
29 maio, 2013
deixa eu te dizer
Deixa eu te dizer: eu não vou me apaixonar por você. Não importa o quão romântico ou solícito você seja, nem o quanto você se disponha a me ver. Ainda que você percorra qualquer distância ou transponha qualquer obstáculo. Ainda que você reserve toda a sua agenda para mim, ou reserve uma mesa naquele restaurante que eu amo, ou me traga uma lembrança de uma viagem, ou simplesmente se lembre de mim. Não vai acontecer. Mesmo que você diga o quanto sente saudade e como seria bom a gente se encontrar novamente. Mesmo que você saiba meu livro preferido, escute as mesmas músicas que eu e expresse, claramente, seu desejo de ficar junto. Ainda que você me admire e faça planos comigo, eu não vou me apaixonar por você. Não importa, de fato, se seu beijo é perfeito, ou se nos divertimos numa viagem sem destino. Não faz a menor diferença se você me abraça durante a noite ou passa horas no telefone comigo. Não importa se você se doa sem receios, eu não vou me apaixonar por você por um simples motivo: se, para amar tanto é preciso ser inteiro, eu não tenho como amar de novo, porque já me levaram a metade. E até agora eu espero, ansiosa, o dia que vão me devolver.
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23 março, 2013
01 dezembro, 2012
crônicas de uma jovem mulher
Capítulo 1: O tarólogo
Sou curiosa. Na verdade, sou bem curiosa e poder vislumbrar uns pedaços do meu futuro sempre me pareceu uma ideia tentadora. Poder antecipar situações, me previnir de acontecimentos ou simplesmente dar oportunidade para que certas coisas aconteçam, dá aquela segurança na alma. Ou não.
Depois de um ano extremamente conturbado, eis que uma amiga me dá um conselho que ecoou na minha cabeça como um brado retumbante: "vai naquele tarólogo que eu te falei! ele é maravilhoso e acertou tudo da minha vida!!" A eloquência era tanta que em menos de dois minutos me vi convencida de que não poderia mais viver se não consultasse o tal tarólogo.
Peguei o nome e o telefone do cara, mas só marquei uma consulta semanas depois. Sempre gostei de astrologia, signos, símbolos, cartas, mas ler o horóscopo da Susan Miller (pelo aplicativo que eu paguei para baixar) e pagar vinte e quatro reais para saber o meu jogo de tarot do amor no Personare, tinham sido as atitudes mais drásticas que eu havia tomado na minha vida astrológica. (sim, sim, eu paguei o Personare! Me julguem.) Portanto achei que ir a um tarólogo seria mais uma experiência imperdível.
Cheguei sozinha ao endereço que o tarólogo me forneceu. Uma rua relativamente estranha, colada a uma comunidade dessas que eu ainda não sei o nome, aqui no Rio de Janeiro. Toquei a campainha e rapidamente subi ao apartamento do dito cujo. O tarólogo era uma figura esquisita. Cabelo preto, mais ou menos na altura dos ombros, escovado como uma bananeira e, com certeza, tinha sido submetido a algum alisamento ou chapinha. É o tipo de coisa que qualquer mulher perceberia.
Achei que um tarólogo teria aparência mística, com túnica branca, colares, e talvez uma pinta vermelha na testa, o que seria, na verdade, uma mistura de macumbeiro com um monge indiano. A nossa cabeça sempre produz uns estereótipos completamente idiotas quando simplesmente desconhece um assunto. O fato é que ele tinha cabelo de chapinha, usava regata de camioneiro que deixava aparentar seu buchinho saliente de cerveja, e um short surrado. E esse era o tarólogo.
Ele me recebeu numa salinha simples. Deixei minha bolsa sobre um aparador encostado à parede, de onde eu conseguia ouvir claramente o barulho da televisão ligada: era Carminha dando show em Avenida Brasil. Dentro da minha bolsa eu deixei o gravador do iPhone previamente ligado para registrar tudo o que ele ia dizer sobre o meu futuro. Não queria esquecer nenhum detalhe, mas depois da consulta a única coisa que eu tinha no celular era um capítulo da novela.
Foi uma experiência incrível ir a um tarólogo. Como eu sou uma tagarela, me concentrei para não falar nada da minha vida, testando a cada segundo os seus poderes de advinhação. Ele falou um monte de coisas que eu sentia, que eu vivia, que eu vivi. Falou de coisas tão específicas que passei a consulta inteira chorando. De alegria, eu acho. É como se, pela primeira vez na vida, eu não precisasse esconder nada do que sentia por que aquele tarólogo de chapinha sabia de tudo.
Saí da consulta e esqueci de perguntar tantas outras coisas que eu tinha dúvidas. Mesmo que fossem questionamentos patéticos como "porquê eu tenho medo de avião?" a impressão que me deu é que aquelas previsões me garatiam uma certa segurança mental, um fio condutor para a minha paz de espírito por que, finalmente, eu sabia o caminho que a vida deixou reservado para mim.
O problema de saber o futuro é que, ao contrário da tranquilidade que eu esperava, eu me deparei com a ansiedade da espera. Cada pessoa que cruza meu caminho pode ser a próxima a me fazer sofrer. Aquele rapaz que não ia dar certo, eu antecipei a derrota da situação. O próximo pode ser o homem da minha vida, mas as características têm que bater com a descrição.
O ônus de "saber o futuro" é essa angústia do que ainda não chegou. O bônus é que você tem tempo de olhar tudo com mais atenção, dar uma nova chance ao que você iria desistir e perceber certas nuances da vida que antes você não conseguia ver. É como se, de repente, eu fosse uma espectadora atenta da minha própria trama, desejando que chegue logo próximo capítulo, mas contemplando a vida enquanto o tempo não passa.
Só essa correção na minha miopia emocional já valeu a ida ao tarólogo.
27 novembro, 2012
com urgência
A maioria das mulheres é que desempenha esse papel. O esforço de criar um relacionamento e fazer com que ele dê certo e permaneça existindo. A porcentagem de homens que batalham todos os dias para manter "a casa" é infinitamente menor do que a de mulheres dispostas a fazer dessa, sua missão de vida.
Investimos tempo, dedicação, horas de salão e calcinhas novas. Fingimos que não vemos uma porção de coisas, fazemos de conta que não sentimos falta daquelas baboseiras românticas, e que somos todas muito adultas, centradas e independentes. Colocamos de lado nossa carência para não incomodar o parceiro e raramente falamos abertamente dos planos que, secretamente, fazemos com eles. De casar, ter filhos e passar o resto da vida juntos. Jogamos para baixo do tapete todas as falhas do outro e junto vão também as ausências, a falta de palavras do pé do ouvido. Colocamos na balança o dobro do peso para as poucas alegrias, a metade da medida para as lágrimas que choramos.
Aplicamos uma visão "holística" do relacionamento que poderia facilmente ser confundida com um glaucoma. E com muita esperança sempre construimos coisas que, de fato, não existem. Somos criadas com a urgência de ser feliz para sempre. E isso é muito natural (e urgente) se levarmos em consideração que a natureza nos dotou de pouco tempo de procriação. É um "movimento" psicológico natural para a maioria das mulheres. Com essa urgência uterina construimos sonhos, amores profundos, expectativas. Com essa urgência queremos o maior amor do mundo, planejamos a casa e a família. Com essa urgência doamos tudo o que temos pensando que o outro anda no mesmo passo.
Com essa urgência o tempo passa e não sobra nada entre nós.
A parte mais difícil de desapegar não é do outro. É do que nós, mulheres, construimos sozinhas durante um relacionamento. Poucos homens compreendem quando uma mulher diz que "perdeu tempo" com um cara. É que nosso tempo tem outro valor, outro peso. É um investimento que nós fazemos. É o mesmo que colocar dinheiro na poupança e, em vez de render juros, você perder uma boa parte para o imposto de renda. A matemática é essa. Da perda. Se ao menos saíssemos de um relacionamento empatados...mas em geral perdemos o outro e tudo o que projetamos nele. E não é fácil passar anos e anos alimentando um sonho e depois ter que acordar.
E a coisa pode ficar muito pior se pensarmos que em breve outra pessoa terá a chance de fazer aquele mesmo investimento, no seu lugar. E que talvez essa pessoa consiga, de fato, um retorno e você fique apenas assistindo, de camarote, seu castelinho de cartas cair.
Ninguém tem como controlar o que o outro sente ou deixa de sentir, muito menos conseguimos dizer para nós mesmas "pare!". Também não controlamos a hora em que devemos abandonar o barco. Até que outro "investimento" sirva-nos de fôlego para recomeçar, a gente sempre se sente esvaziada, como se o coração fosse um par de bolsos furados, esperando alguém remendar.
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